23.11.04

SÃO, SÃO, SÃO, SÃO
SÃO, SÃO, SÃO, SÃO TOMÉ!!!

São Tomé das Letras é a típica cidade na qual eu nunca iria por vontade própria. A tríade maconha-misticismo-cachoeira não me atrai nem um pouco. Até gosto de cachoeira, mas a impossibilidade de ver o fundo do rio e dar de cara com um pedregulho me incomoda. Demorei a responder o convite de um grupo de amigos. Decidi ir, depois voltei atrás, até finalmente me render. Já havia passado por isso quando fui a Búzios pela primeira e única vez, há três anos. Cidade legalzinha, com boas praias. E até que playboys e argentinos não incomodam tanto. Mas nunca tive vontade de voltar.


A camisa ideal para ir a São Tomé

A primeira impressão ao chegar em São Tomé é dúbia. De um lado, o tremendo visual da serra. Do outro, um pedaço da cidade que parece uma favela, além de um clarão onde as pedras são extraídas. Com a exploração da cidade, o volume de água das cachoeiras diminuiu. Fala-se em aparição de ET´s, duendes, mas isso depende do que você tomar. Dizem que um grupo do exército (ou dos bombeiros) percorreu a gruta do Carimbado durante três dias sem achar o fim. Ela daria Matchu Pichu, no Peru. Lorota, já que na altura dos 200 metros ela fica estreita e nenhum ser humano passa.

A trilha sonora de São Tomé é Raul Seixas. Em qualquer lugar que se vá ecoa a música do Maluco Beleza. Um saco. Muitas pessoas acham que estão nos alucinógenos anos 70 ou vivendo em uma Sociedade Alternativa. Podem apelar para a Fundação Harmonia, um lugar de bitolados que junta tudo quanto é religião numa seita. Tem disco voador, incas, caboclos, índio, presépio, buda... Como tudo nesse mundo é lucro, a parada final da visita guiada é um quiosque com produtos esotéricos, com direito a vendedora contando a história da criação do mundo através de uma mandala - destaque para a parte em que a mandala vira um disco voador, momento em que apelei para as forças astrais para não explodir de rir. O lugar tem até pousada, mas acho que acabaria sendo expulso de lá (apesar de achar que entre a galera da comunidade role a maior fudelança).

Mas foi à noite, num frio acachapante e em volta de muita fumaça, que presenciei o momento mais tosco da viagem: Ventania, o astro da cidade. Barba e capuz de hobbit, este Raul Seixas de quinta categoria canta músicas que falam de cogumelos, maconha, viagens sem rumo. A galera lota o precário Bar do 2 para entoar junto coisas como "Louco louco loucumelo, Louco louco loucumelo, cogumelo de zebu / Zebu morreu, ele se fudeu, o cogumelo é meu". Em outro hit, "O diabo é careta", Ventania morre e vai para o inferno (é claro), onde oferece um fumo para o capeta, que surpreendentemente recusa.

Ventania

No pé do Bar do 2 está a subida para a pirâmide, uma casa de pedra abandonada, ponto ideal para ver o nascer e o por do sol. As nuvens passam perto - a cidade está a 1440 metros de altitude, a terceira mais alta do país - quase dá para tocá-las (mais uma vez, depende do que você tomar). Se você ainda acredita que pode alcançar uma dimensão sobrenatural, vá logo a São Tomé antes que ela seja toda fumada.